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Cientistas recriam dentes a partir de
células tronco
Clare Wilson
Da New Scientist
O dentista olha para o interior da boca do paciente e abana a cabeça,
com uma careta. "Acho que teremos de extrair. A lesão se espalhou por
todo o dente".
"Arrrgh", responde o paciente, segurando com mais força os braços da
cadeira.
"Não se preocupe. Nossos registros nos informam que o senhor tem um
depósito de células-tronco conosco. Um dente novo estará pronto
rapidamente. Marque uma consulta para colocar o seu dente quando sair.
Digamos daqui a dez semanas".
Quando mencionamos bioengenharia, a última coisa em que as pessoas
pensam são dentes. Órgãos vitais como o fígado, os rins ou o coração -
os que matam o paciente caso deixem de funcionar, são uma coisa. Mas,
dentes?
Alguns poucos grupos de pesquisadores acreditam que, no momento, a
odontologia apresente alguns dos desenvolvimentos mais animadores na
área da bioengenharia. E talvez demore apenas dez anos para que uma
variação da cena descrita acima seja executada de verdade nas cadeiras
dos dentistas, calcula Paul Sharpe, diretor de desenvolvimento
craniofacial no King's College de Londres. "O objetivo é que, quando
você for ao dentista, tenha células extraídas e trabalhadas por
engenharia genética", diz. "Depois, as inserimos no lugar onde você
precisa de um dente e logo um dente novo cresce".
Em um mundo cheio de abalos e sem cura absoluta para a decadência
dentária, haverá sempre dentes precisando de substituição. Mas,
encaremos os fatos: as opções disponíveis são menos que ideais.
Dentaduras são desconfortáveis, canhestras e inconvenientes. Implantes
de titânio de última geração implicam em trabalho odontológico pesado e
sangrento, e ainda assim não são exatamente como dentes reais. Já está
mais que na hora de surgirem alternativas melhores.
A bioengenharia avançou bastante nos últimos anos, e com isso surgiu a
possibilidade de criar órgãos do zero. Os dentes são um alvo atraente
para os bioengenheiros. Eles não mantêm as pessoas vivas, como o fígado
e o coração, de modo que se um dente não crescesse de maneira correta, o
dentista poderia simplesmente extraí-lo e começar de novo -algo bem
menos temerário do que implantar um fígado criado por engenharia
genética e vê-lo deixando de funcionar. Além disso, chegar ao local do
implante não requer uma cirurgia de grande porte -apenas o familiar
"abra bem a boca". De fato, alguns pesquisadores acreditam que os dentes
tenham sido negligenciados de maneira insensata, em comparação com os
esforços de criar órgãos mais "glamorosos" por engenharia genética.
E existe uma boa chance de que a vaidade humana garanta um suprimento
constante de dinheiro para a pesquisa necessária. O imenso mercado
norte-americano de odontologia cosmética testemunha o anseio de pelo
menos um país pelo sorriso perfeito. As empresas de biotecnologia já
estão salivando diante da idéia de conquistar uma fatia dessa torta
multibilionária. Os fundadores da Dentigenix, uma empresa
norte-americana criada em novembro, planejam adquirir licenças para
técnicas desenvolvidas por outros pesquisadores que trabalham com
reparos dentários e regeneração de dentes integrais. O executivo chefe
do grupo, Christopher Somogyi, que costumava trabalhar no ramo de
capital para empreendimentos biotecnológicos, diz que a "revolução na
engenharia de tecidos que temos na medicina ainda não avançou de maneira
equivalente na odontologia. Nas conferências, quando um cardiologista
entra na sala, toda a atenção é dedicada a ele". Mas, acrescenta, "o
número imenso de procedimentos potenciais" faz da odontologia uma área
ideal de investimento.
Produção adicional de dentes
Existem inúmeros motivos para acreditar que a regeneração de dentes é
viável, de acordo com Mary MacDougall, diretora associada da Escola de
Odontologia da Universidade do Texas. Muitos dos vertebrados inferiores
desenvolvem novos dentes constantemente -e algumas espécies de tubarões
produzem milhares deles ao longo de uma vida. Ainda que os mamíferos
tenham perdido essa capacidade há muito tempo, as pessoas com certas
doenças genéticas de fato geram dentes adicionais. E os ossos -que
compartilham de certos materiais básicos com os dentes- podem se
regenerar depois de ferimentos, então por que o mesmo não se aplicaria
aos dentes? "A cada vez que temos uma fratura, nossos ossos se curam.
Estamos apenas tentando aumentar a capacidade do corpo quanto a isso",
diz MacDougall.
Não será fácil. Os dentes são compostos por diversos tipos diferentes de
tecidos, entre os quais a dentina dura, e por uma camada fina de
esmalte-a substância mais dura do corpo humano. O desenvolvimento deles
é deflagrado por sinalização bilateral entre as células de pele, ou
epiteliais, das gengivas e as células ósseas. As dificuldades são
muitas, mas existem muitos pesquisadores otimistas e trabalhando em
linhas diferenciadas de ataque. MacDougall diz: "É essa mistura de
abordagens que levará a uma solução".
A posição dos otimistas foi estimulada pela confirmação de que existem
células-tronco dentárias. As células-tronco têm a capacidade
incrivelmente valiosa de se desenvolver na forma de tipos diferentes de
tecido. No passado consideradas como presentes exclusivamente em
embriões, agora se sabe que elas de fato persistem em muitos tecidos.
Dois anos atrás, Songtau Shi e colegas do Instituto Nacional da Saúde
dos Estados Unidos descobriram células capazes de se tornar
odontoblastos produtores de dentina. Os pesquisadores usaram polpa
dental extraída de dentes do siso (3º molar) humanos, dividiram-na com
enzimas e procederam à incubação em soluções de Petri. A maior parte das
células morreu, mas algumas poucas continuaram crescendo e se dividindo
-um sinal claro de que se tratava de células-tronco. Os pesquisadores
calcularam que dos milhões de células em uma câmara de polpa dentária,
cerca de 80 são células-tronco.
O próximo desafio era descobrir se essas células poderiam ser
encorajadas a se desenvolver na forma de odontoblastos. A equipe de Shi
misturou as células-tronco da polpa dentária com hidroxiapatita, a parte
mineral da dentina, e as implantaram sob a pele de camundongos, para
simular sua posição normal debaixo das células epiteliais da gengiva.
Dois meses mais tarde, algumas das células haviam se transformado em
odontoblastos, e começaram a excretar dentina, com sua reveladora
estrutura cristalina. E algumas haviam formado uma substância semelhante
à polpa, contendo vasos sangüíneos e tecido nervoso. "Todos nos
surpreendemos quando vimos o resultado no microscópio", relembra Shi. "A
experiência demonstrava que a regeneração de dentes era pelo menos
teoricamente possível".
Transformar camundongos em fábricas de dentes é uma opção pouco
atraente. Outros pesquisadores estão tentando gerar o sinal vital
epitelial de maneira mais autêntica. Localizar as células-tronco do
epitélio será muito mais difícil do que localizar as da polpa dentária.
Durante o desenvolvimento, as células produtoras de esmalte (ameloblastos)
se posicionam sobre o esmalte que excretam. Tão logo um dente irrompe
através da gengiva, a camada superficial de ameloblastos é desgastada
rapidamente e perdida para sempre -ou é isso que as pessoas sempre
acreditaram.
MacDougall, porém, diz que sua equipe descobriu uma fonte de células
epiteliais dentro dos dentes de ratos adultos -ainda que ela não informe
exatamente onde por motivos comerciais. Quando essas células são
cultivadas em laboratório ao lado de células de polpa dentária,
formam-se estruturas de dentina e esmalte. MacDougall diz que "não é
100% um dente", mas perto disso. O próximo passo de seu grupo será
implantar o dente nas mandíbulas de animais, permitindo que ele se funda
lentamente com o osso ao longo de alguns meses. Em clínicas, um
cronograma assim longo seria desvantajoso, diz ela, mas não muito pior
do que o dos implantes de titânio usados hoje, lembra.
Dente em botão
A abordagem de MacDougall não é a única, porém. Há quem favoreça o
cultivo de um dentre dentro da gengiva mesmo, permitindo que o cimento e
os ligamentos se desenvolvam de maneira mais natural. O plano é inserir
um dente em uma gengiva em estágio muito anterior de seu
desenvolvimento, quando não passa de um conjunto de células, um "dente
em botão" de apenas alguns milímetros de comprimento.
Um dos que planejam usar essa abordagem é Jay Vacanti, que trabalha no
Massachussets General Hospital, de Boston. Vacanti é um dos pioneiros na
engenharia de tecidos -cinco anos atrás, ele ajudou a criar a famosa
"orelha" artificial implantada de maneira tão bizarra nas costas de um
rato. Em trabalho submetido para publicação, ele e Pam Yelick, do
Instituto Forsyth, de Boston, estão cultivando dentes dentro de ratos,
em seus intestinos. Trata-se de uma técnica já testada com sucesso na
engenharia de tecidos, aproveitando o rico suprimento de sangue
intestinal.
"Nós geramos com sucesso pequenos dentes que contêm estruturas
epiteliais e mesênquimas", diz Yelick. "Agora, estamos aprendendo como
criar dentes maiores alterando as condições de cultivo". Por enquanto,
Vacanti e Yelick estão obtendo células de dentes em desenvolvimento em
embriões de ratos. Yelick diz que o próximo obstáculo será descobrir
como cultivar dentes com células-tronco adultas.
Em Londres, depois de muitos anos de trabalho com células-tronco
embriônicas, Sharpe está agora usando células-tronco adultas, ainda que
não revele quais. E está cultivando dentes em soluções de cultura, e não
no interior de animais. Ao descobrir as moléculas sinalizadoras
corretas, ele persuadiu diversos tipos de célula-tronco de camundongos
adultos a se desenvolverem como células progenitoras de dentes e como
dentes imaturos.
O próximo passo para ele é implantar os brotos de dentes em mandíbulas
de animais. Ele calcula que o broto dentário em desenvolvimento atrairá
suas próprias conexões nervosas e sangüíneas, e desenvolverá cimento e
ligamentos próprios. "Assim que se dá o primeiro empurrão, eles crescem
sozinhos", diz.
Ainda que tenha publicado poucos detalhes de suas técnicas, diversos
pesquisadores no ramo acreditam que Sharpe seja o cientista a observar.
Sharpe confia em que suas técnicas atingirão estágio clínico, e criou
uma empresa, a Odontis, para explorá-las. Ele não se preocupa muito com
as críticas de que o desenvolvimento de dentes é complexo demais para
ser emulado. "Sim, é complicado", diz. "Mas estamos permitindo que as
rotas naturais de desenvolvimento embriônico trabalhem em nosso favor".
Mutação genética
Esses implantes de brotos de dentes seriam quase como a coisa real -mas
não completamente. MacDougall tem objetivo ainda mais ambicioso
-persuadir dentes a crescer, do zero, de dentro da gengiva. Ela acredita
que a pesquisa de sua equipe sobre uma bizarra desordem genética chamada
displasia cleidocranial abrirá o caminho. As pessoas afetadas sofrem de
diversas anormalidades, incluindo cabeças deformadas, falta de ossos
claviculares e, intrigantemente, dentes adicionais.
Todos os problemas derivam da mutação de um único gene, o RUNX2. Ele tem
tantos efeitos que é evidente que deve desempenhar um papel-chave no
desenvolvimento inicial do esqueleto, conectando-se a muitos genes
posteriores, diz Macdougall. O laboratório dela está tentando descobrir
qual desses genes posteriores deflagra o desenvolvimento de dentes, e
como acioná-lo. "O corpo tem capacidade para fazê-lo. Precisamos apenas
aprender mais sobre o processo e adquirir controle sobre ele", diz.
MacDougall quer ganhar a capacidade de provocar o desenvolvimento de um
novo dente com uma ou duas injeções na gengiva, para que alguns meses
mais tarde surja um dente plenamente formado.
Embora os implantes de brotos dentários de Sharpe talvez pareçam mais
promissores por enquanto, a meta de longo prazo de MacDougall talvez se
prove mais simples para os pacientes. MacDougall admite, porém, que esse
tratamento envolveria um preço a ser pago. O processo de surgimento de
um dente através da gengiva -a dentição-, é algo que não nos deixou
muito contentes da última vez que passamos por ele, aos seis meses de
idade. "Jamais pensamos na erupção de dentes como problema, até
recentemente", diz. "Um jornalista de uma revista masculina de saúde me
perguntou se os homens estariam prontos a passar de novo pela dentição.
É um problema potencial". A maior parte das pessoas conseguiria suportar
o desconforto sem muitas queixas, acredita ela. "Suponho que possamos
lhes receitar anestésicos, ou um protetor bucal".
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